A amplitude de um conceito que permite criar absolutamente qualquer coisa pode se tornar mais uma armadilha do que uma facilidade. Diante do desafio de adaptar as famosas salas amarelas da creepypasta para o cinema, o roteirista Will Soodik tinha um universo infinito de possibilidades nas mãos para o longa-metragem de terror da A24. Mas será que ele deu conta do recado?
Para essa missão, Soodik contou com o parceiro ideal: o diretor Kane Parsons (hoje com 20 anos), o maior entusiasta do projeto. Durante a pandemia, Parsons usou as ferramentas Blender e After Effects para dar vida a um curta-metragem que já ultrapassa a marca de 216 milhões de visualizações no YouTube, transformando uma lenda da internet em um projeto cinematográfico ambicioso.
Uma Narrativa Envolvente e Imprevisível
Para quem adora explorar as teorias e mitologias que cercam esse universo, Backrooms: Um Não-Lugar é um prato cheio. O grande trunfo da produção é a imprevisibilidade: o espectador nunca sabe o rumo que a história vai tomar, e essa sensação de incerteza das salas amarelas é transportada com sucesso até para as cenas em ambientes externos.
Embora Clark (vivido por Chiwetel Ejiofor) funcione como o guia principal que nos conduz ao coração dos backrooms, é a jornada de Mary (Renate Reinsve) que realmente rouba a cena e traz profundidade à trama. Os paralelos traçados por sua narrativa mantêm o público curioso mesmo fora dos cenários bizarros.
O filme funciona como um escape room claustrofóbico e aterrorizante. Como o público descobre o que está acontecendo junto com os personagens, sabendo apenas o que eles sabem, a sensação de imersão nesse ecossistema bizarro é total.
Faltou Abraçar o Absurdo
Por outro lado, o que deveria ser o ponto mais forte do filme acaba se tornando sua maior fraqueza. O desconhecido dos backrooms abria margem para o roteiro apostar em situações completamente absurdas e surreais — afinal, quase nada seria bizarro demais para essa lenda urbana. No entanto, o longa utiliza esse recurso menos do que deveria.
A produção tinha potencial para chocar o espectador por meio das analogias de Mary e de imagens e sons saídos diretamente de um pesadelo. Em vários momentos, a trilha sonora cria uma atmosfera de tensão crescente, indicando que algo grandioso vai acontecer, mas o resultado é uma expectativa frequentemente frustrada.
Fotografia Correta, Mas Sem Ambição
A direção de fotografia sofre do mesmo mal: a falta de ousadia. Embora existam soluções visuais muito interessantes — como o uso da câmera na mão para colocar o espectador dentro da ação e um plano específico envolvendo cadeiras pelo cenário —, o trabalho visual joga na defensiva.
É compreensível que Parsons tenha optado por planos estáticos para homenagear a estética original dos vídeos da internet. Contudo, em uma produção para os cinemas com o selo da A24, o diretor tinha licença poética para ir além e explorar toda a criatividade e o domínio tecnológico que já provou ter no YouTube.
Afinal, Vale a Pena Assistir?
Backrooms: Um Não-Lugar está longe de ser um filme ruim, mas deixa a sensação de ser apenas a introdução a um universo muito mais vasto. Mesmo que uma sequência venha a acontecer no futuro, este capítulo isolado poderia ter arriscado mais na exploração visual e sonora do desconhecido infinito. O filme causa desconforto e traz ruídos bizarros, mas tinha lenha para queimar.
Em uma era onde o cinema frequentemente abusa do absurdo sem justificativa, esta era a oportunidade perfeita para testar os limites da imaginação do público e explorar o “vale da estranheza” ao máximo. Ainda que falte esse fôlego extra e a maior parte do cenário se resuma a paredes amarelas, a experiência imersiva de escape room garante que o filme vale o ingresso no cinema.





