A plataforma de streaming da Netflix estreia nesta quinta-feira (17) a quarta parcela da aclamada coletânea dramática de Ryan Murphy, intitulada Monstro: A História de Lizzie Borden. Desta vez, a antologia de crimes reais — que já gerou bastante debate ao retratar tragédias chocantes — foca em uma figura central feminina pela primeira vez, interpretada pela atriz Ella Beatty. A trama revisita o famigerado e insolúvel caso ocorrido em 1892 na cidade de Fall River, Massachusetts, utilizando o passado para evidenciar o cenário sufocante imposto às mulheres do século XIX.
A dinâmica familiar e as tensões em Fall River
Nascida em 1860, Lizzie cresceu em um lar financeiramente estável graças aos bem-sucedidos investimentos industriais de seu pai, Andrew Borden. Contudo, a riqueza acumulada contrastava com a extrema parcimônia do patriarca, que evitava gastos com o bem-estar da família.

Lizzie Borden ganhou fama mundial após ser acusada de assassinar o pai e a madrasta. (Wikimedia Commons/Domínio Público)
A situação deteriorou-se após o falecimento da mãe, Sarah. Quando Andrew uniu-se em matrimônio com Abby Gray, as filhas — Lizzie e sua irmã mais velha, Emma — passaram a conviver com uma madrasta pela qual nutriam profunda antipatia. O ressentimento alimentava-se tanto da aversão de Andrew em dividir seus bens quanto da convicção de Lizzie de que a nova esposa havia se casado unicamente por interesse financeiro, consolidando um ambiente doméstico permanentemente tenso.
O crime brutal e o julgamento histórico
O ponto de virada ocorreu em 4 de agosto de 1892, quando o casal foi encontrado brutalmente assassinado na residência da família: Andrew jazia no sofá com múltiplos ferimentos de machado, enquanto Abby estava no quarto com dezenas de golpes similares. Com 32 anos na época, Lizzie rapidamente entrou na mira das autoridades locais.

Após suspeitas das autoridades, Lizzie Borden virou a principal suspeita das mortes de Andrew e Abby Borden. (Wikimedia Commons/Domínio Público)
As investigações ganharam força devido a inconsistências nos depoimentos prestados por ela e pela empregada da casa, Bridget Sullivan. O cenário agravou-se quando um farmacêutico relatou que a herdeira tentara adquirir veneno letal na véspera do crime. Presa e submetida a um julgamento amplamente coberto pela imprensa da época — nos moldes de um verdadeiro espetáculo midiático —, Lizzie defendeu-se perante o júri adotando uma postura de fragilidade.
O mistério insolúvel e o legado cultural
Por falta de evidências materiais definitivas, o tribunal absolveu Lizzie das acusações, e nenhum outro culpado foi identificado, deixando o caso sem uma resolução oficial. Embora tenha retornado à sua cidade natal após a absolvição, ela conviveu com o ostracismo social até falecer aos 66 anos, em 1927, vítima de pneumonia.
Explorando as lacunas deixadas pela investigação histórica, a nova temporada da série utiliza a premissa dos assassinatos para aprofundar discussões sobre misoginia, sufocamento social e fúria reprimida. Dividida em oito episódios, a produção chega ao catálogo da Netflix para reinterpretar um dos enigmas criminais mais duradouros da história norte-americana.





