Um julgamento de proporções históricas na Califórnia chegou à sua etapa decisiva. Um júri no Tribunal Superior de Los Angeles definirá se gigantes da tecnologia, como Meta (Instagram e Facebook) e Google (YouTube), podem ser legalmente responsabilizadas por danos à saúde mental de crianças e adolescentes.
O caso, movido por uma jovem de 20 anos identificada como Kaley (KGM), serve como um “julgamento-piloto”. O veredito deve criar um precedente jurídico para mais de 1,6 mil ações semelhantes que tramitam nos Estados Unidos, movidas por famílias e instituições de ensino.
O Caso Kaley: “Engenharia da Dependência”
A acusação sustenta que Kaley desenvolveu depressão, fobia social e comportamentos de automutilação após começar a usar o YouTube aos seis anos e o Instagram aos nove. O argumento central não foca no conteúdo postado, mas no design das plataformas.
- Recursos questionados: Rolagem infinita (scroll), reprodução automática e botões de curtida.
- Tese da acusação: Essas ferramentas foram projetadas como “cavalos de Troia” para maximizar o tempo de tela e o lucro publicitário, ignorando o bem-estar dos menores.
- Analogia: O advogado da autora comparou a estratégia das empresas à da indústria do tabaco, que negava os danos à saúde enquanto lucrava com a dependência dos usuários.
Documentos Internos: “Somos basicamente traficantes”
Durante as seis semanas de julgamento, a divulgação de comunicações internas das empresas causou impacto. Em e-mails de 2020, funcionários da Meta chegaram a afirmar que o Instagram “era uma droga” e que a empresa agia como “traficante”. Outro documento do YouTube, de 2021, admitia que a plataforma não possuía métricas para medir o bem-estar dos usuários, focando apenas no vício.
A Defesa das Big Techs
Meta e YouTube negam qualquer responsabilidade direta nos problemas de saúde mental da jovem.
- Argumento da Meta: A defesa apresentou gravações de conflitos familiares, sugerindo que o quadro depressivo de Kaley deriva de problemas domésticos e predisposições psiquiátricas independentes das redes.
- Argumento do YouTube: Os advogados destacaram a falta de um diagnóstico formal de vício em redes sociais nos registros médicos da autora e o fato de ela ter perdido o interesse na plataforma ao crescer, o que invalidaria a tese de dependência química ou comportamental.
O que acontece agora?
As deliberações do júri começam nos próximos dias. Se condenadas, as empresas podem enfrentar:
- Indenizações milionárias: Pagamentos significativos à autora e potenciais gastos com os outros 1,6 mil processos.
- Mudanças estruturais: Pressão regulatória e judicial para alterar algoritmos e funções de engajamento das plataformas.
Independentemente do veredito, especialistas em segurança online afirmam que o simples fato de o caso ter chegado a um júri popular — com depoimentos de executivos como Mark Zuckerberg — já representa uma vitória para as associações de vítimas.





