Desde 2024, uma ofensiva sistemática de espionagem digital vem operando nas sombras contra provedores de internet e telefonia na América do Sul. Um relatório detalhado da Cisco Talos aponta, com alto grau de certeza, que o grupo responsável — batizado de UAT-9244 — possui vínculos diretos com o governo chinês.
Diferente de ataques de ransomware comuns, o objetivo aqui não é o lucro financeiro, mas o controle de informações estratégicas. Ao comprometer a “espinha dorsal” das comunicações de um país, os invasores ganham acesso potencial a dados governamentais, chamadas telefônicas e sistemas de segurança pública.
As Evidências da Origem
A atribuição à China baseia-se em provas técnicas robustas:
- Identidade de Código: O grupo compartilha infraestrutura e métodos com coletivos conhecidos como Famous Sparrow e Tropic Trooper.
- Rastros Linguísticos: Foram encontradas “strings de debug” (anotações de programadores) em Chinês Simplificado dentro dos arquivos maliciosos.
O Arsenal Inédito: Três Armas de Alta Precisão
A investigação revelou o uso de três softwares maliciosos nunca antes documentados, cada um com uma função específica na invasão:
- TernDoor (Alvo: Windows): Utiliza a técnica de DLL side-loading, substituindo arquivos legítimos do sistema por versões adulteradas. Ele permite que os hackers executem comandos remotos e apaguem seus próprios rastros após a operação.
- PeerTime (Alvo: Linux e Roteadores): Infecta a infraestrutura de rede (switches e roteadores). Seu grande trunfo é a discrição: ele usa o protocolo BitTorrent para se comunicar, fazendo com que o tráfego malicioso pareça um simples compartilhamento de arquivos comum.
- BruteEntry (O Expansor): Transforma os aparelhos já infectados em “soldados digitais”. Esses dispositivos passam a realizar ataques de força bruta contra outros sistemas, mascarando a origem real do ataque (que parece vir da própria vítima, e não da China).
Como as Empresas Devem se Proteger?
A Cisco Talos recomenda uma postura de vigilância ativa para mitigar os riscos dessa campanha. As principais orientações incluem:
- Auditoria de Sistemas: No Windows, verificar a presença dos arquivos
WSPrint.exeeBugSplatRc64.dll, além de tarefas agendadas suspeitas. - Controle de Tráfego: Monitorar e, se possível, bloquear o uso de protocolos BitTorrent em equipamentos de infraestrutura de rede.
- Reforço de Acesso: Implementar autenticação de múltiplos fatores (MFA) em todos os serviços administrativos, especialmente no protocolo SSH.
- Atualização de Hardware: Manter firmwares de roteadores e switches rigorosamente atualizados, já que esses dispositivos costumam ser os elos mais fracos da corrente.
- Monitoramento em Tempo Real: Adotar soluções de EDR (Endpoint Detection and Response) para identificar comportamentos anômalos que antivírus tradicionais podem não detectar.





