Momentos antes de a Rockstar Games publicar a primeira demonstração oficial de jogabilidade de GTA 6 na última quinta-feira (27), o perfil conhecido como CyberLeek — responsável por soltar cerca de 15 trechos antecipados do game sob a bandeira de um suposto boicote contra a exclusividade digital imposta pela produtora — realizou a conversão e o saque de aproximadamente R$ 1,5 milhão acumulados através de um esquema de criptoativos criado em torno dos próprios vazamentos.
A escolha do instante exato não foi obra do acaso, ocorrendo minutos antes de a transmissão “GTA 6: Um Olhar Estendido” ir ao ar na Netflix, marcando a primeira aparição de imagens oficiais do jogo desde sua revelação. Com a fraude financeira aparentemente concluída, a saga dos vazamentos parece ter chegado ao fim, revelando sua verdadeira motivação.
Como o trajeto do capital foi descoberto
Em apuração divulgada dias antes, o Canaltech já havia mapeado a estratégia do criminoso para cativar seguidores a ponto de ser idolatrado por parte da comunidade, transformando sua memecoin, batizada de $CYBERLEEK, em alvo de investimentos dos fãs mais ávidos por novidades.
Foi justamente a movimentação atípica desse ecossistema virtual que denunciou a manobra. Por meio de uma investigação aprofundada publicada no fórum especializado GTAForums, o membro Vice Cit monitorou as carteiras digitais associadas ao ativo e constatou que o operador repartiu cerca de US$ 268 mil (ultrapassando R$ 1,4 milhão) em quatro operações distintas, executadas segundos antes do lançamento promovido pela desenvolvedora.
O montante foi fracionado em pelo menos três endereços virtuais diferentes com o intuito de despistar o rastreio, com partes do capital transitando pelas corretoras KuCoin e CCE.Cash, enquanto o restante permaneceu estático em carteiras inativas.
Os dados levantados também apontam indícios de que ao menos duas pessoas estariam operando sob a alcunha de CyberLeek, adotando táticas operacionais distintas para efetuar os saques, o que desfaz a imagem de um ativista solitário agindo por impulso e sugere um plano estruturado. Até o momento, as identidades reais dos envolvidos permanecem em sigilo.
It's still crashing, now at $9M
— KINGJulien (@KINGJulien15x) August 26, 2026
Sell volumes are also growing a lot against buy volumes
This guy could get desperate soon; although he has likely already capitalized a lot via wallets that we cannot track https://t.co/O6eucQujjl pic.twitter.com/5buWfwEhGu
Indícios de fraude que já levantavam suspeitas
Quem acompanhou o desdobramento do caso de perto já percebia os sinais de mercantilização por trás da retórica de protesto.
O grupo liderado por CyberLeek chegou a distribuir arquivos falsos que prometiam acesso antecipado ao título no computador — tratava-se, na verdade, de softwares maliciosos, incluindo um pacote de mais de 113 GB recheado de códigos capazes de burlar barreiras de segurança e comprometer máquinas de quem tentasse executá-los.
Além disso, a liberação de novos clipes visuais — como o do clube noturno presente no mapa — era condicionada a metas de valorização da própria memecoin, além de cobranças antecipadas de até US$ 160 mil de anunciantes interessados em estampar marcas nos vídeos distribuídos.

Esquema montado por CyberLeek já dava indícios de golpe (Divulgação/Take-Two Interactive)
O discurso oficial do grupo pregava o fim das vendas exclusivamente digitais, o veto a conteúdos de expansão já presentes nos arquivos originais e a implementação de modos offline obrigatórios. Tais pautas encontraram eco em uma parcela descontentes dos fãs, conferindo a fachada de legitimidade necessária para movimentar o esquema.
Nenhuma dessas bandeiras, contudo, impediu que o token gerado a partir da polêmica movimentasse dezenas de milhões de dólares em negociações ao longo das semanas anteriores.
O prejuízo arcado pelos seguidores
Com a retirada dos fundos, o golpe aplicado em torno de GTA 6 concretizou-se: o preço da memecoin derreteu cerca de 75% em poucas horas, deixando os investidores no prejuízo. Esse costuma ser o desfecho padrão para ativos digitais gerados a partir de picos de viralização — moedas sem utilidade intrínseca cuja cotação depende exclusivamente da atenção nas redes sociais, desabando assim que o apelo midiático diminui ou os idealizadores decidem resgatar os lucros.
GTA 6 leaker scam coin has crashed to $4.1M market cap
— KINGJulien (@KINGJulien15x) August 27, 2026
I don’t see any recovery from this
Too early to celebrate, but this is very good to see pic.twitter.com/W1Gi4t5iGP
Segundo a auditoria realizada por Vice Cit, o próprio CyberLeek parece ter notado a perda de tração do interesse público nas 24 horas que antecederam o especial da Netflix, o que motivou a decisão de sacar o montante enquanto o criptoativo ainda possuía liquidez, antes que os holofotes migrassem em definitivo para o conteúdo oficial da Rockstar.
O futuro dos vazamentos de GTA 6
Com o fim do estratagema financeiro e os autores fora do alcance, o mercado agora questiona se novos materiais paralelos continuarão a surgir até a chegada oficial do jogo, agendada para 19 de novembro. A resposta objetiva indica que, ao menos por enquanto, os vazadores silenciaram e desapareceram com os recursos no exato momento em que o produto sustentador de sua audiência perdeu o monopólio das imagens do título.
Independentemente de novos episódios virem à tona, a engenharia financeira montada por CyberLeek consolida-se como um estudo sui generis sobre a mercantilização de vazamentos: manifesto contestatório para obter credibilidade, material sigiloso como engodo de tráfego, lançamento de criptomoeda como ferramenta de lucro e, por fim, a retirada discreta assim que a demanda começa a minguar.
Uma narrativa digna de simulação criminal em Grand Theft Auto, com a diferença de que, desta vez, a infração ultrapassou as barreiras da ficção digital.





