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O curioso motivo pelo qual a China decidiu limitar os “namorados virtuais”

FOTO: REPRODUÇÃO/JULIO LOPEZ/UNSPLASH

Desde esta quarta-feira (15), entrou em vigor na China uma nova diretriz que impõe limites aos parceiros digitais baseados em inteligência artificial. A norma afeta plataformas que oferecem simulações de namoros e laços românticos, provocando um movimento de despedidas nostálgicas entre os internautas chineses.

Antecipando as exigências, empresas de tecnologia como Tencent (Yuanbao), Alibaba (Qwen) e ByteDance (Doubao e TikTok) já desativaram os recursos voltados à companhia virtual em seus sistemas.

Muitas pessoas acessaram as plataformas para salvar o histórico de conversas e dar adeus aos seus parceiros sintéticos. De acordo com relatos da agência AFP, uma usuária do Doubao desabafou sobre a dificuldade de lidar com a perda de um companheiro virtual que, segundo ela, funcionava como um suporte emocional fundamental em sua rotina.

Oficialmente, a motivação das autoridades, apoiada por cinco órgãos estatais — incluindo a Administração do Ciberespaço da China (CAC) —, é evitar que essas tecnologias fomentem vícios, dependência psicológica ou interfiram negativamente nas interações sociais presenciais.

As companhias do setor agora devem implementar avisos frequentes de que se trata de uma inteligência artificial, realizar intervenções caso detectem instabilidade emocional no usuário, facilitar o encerramento da conta e restringir o uso por menores de idade.

Contudo, observadores apontam que o rigor governamental está conectado a uma preocupação mais profunda: o declínio demográfico do país.

Em 2025, a China registrou o menor número de nascimentos desde 1949 (Reprodução/Dominic Kurniawan Suryaputra/Unsplash)

O fator demográfico

Conforme análise de James Palmer, da revista Foreign Policy, a restrição estaria vinculada aos índices de natalidade da China, que atingiram níveis mínimos. A visão estatal é de que o engajamento afetivo com IAs desestimula as conexões humanas reais, algo que o governo quer evitar enquanto busca formas de reverter a queda populacional.

O comportamento dos usuários

Diferente da tendência global, que prioriza “namoradas virtuais”, a China apresenta um padrão distinto: a maior parte da demanda vem do público feminino. Especialistas associam esse comportamento à ascensão da “cultura 2D” (ligada a animes e desenhos), que ganhou força entre as mulheres nos últimos dez anos.

Há, ainda, o caso de homens que utilizam as IAs por se sentirem à margem dos relacionamentos convencionais. Um docente mencionou o exemplo de um universitário que, devido à falta de recursos financeiros e prestígio social, preferiu manter o relacionamento com três IAs simultaneamente em vez de buscar uma parceira real.

Um mercado em expansão

A relevância econômica desse setor é considerável. O aplicativo Talkie, líder na área, registrou cerca de 23,5 milhões de usuários ativos por mês ao final de 2025. Dados da agência estatal Xinhua indicam que o mercado de “humanos digitais” chinês alcançou a marca de 4,1 bilhões de yuans em 2024, apresentando uma alta de 85% sobre o período anterior.

Embora as restrições sejam severas na China, o uso de companhias virtuais é um tema global. Uma pesquisa de 2025 conduzida pela Common Sense Media revelou que aproximadamente 75% dos adolescentes nos Estados Unidos já interagiram com IAs em plataformas como Nomi, Replika ou Character.AI.

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