Especialistas em segurança digital do CISPA Helmholtz Center for Information Security descobriram pontos fracos severos nos mecanismos de transferência de arquivos AirDrop (da Apple) e Quick Share (utilizado pelo Google e pela Samsung).
De acordo com o levantamento, os problemas colocam em risco mais de cinco bilhões de aparelhos ao redor do mundo. Um criminoso localizado em um raio de até 30 metros consegue se aproveitar dessas brechas carregando apenas um laptop. Para o ataque acontecer, não é necessário que o usuário clique em links suspeitos, compartilhe a mesma rede Wi-Fi ou que haja qualquer proximidade física entre os dispositivos.
Os autores do estudo explicam que a raiz do problema reside na própria arquitetura das ferramentas. Tanto o sistema da Apple quanto o do Google/Samsung acionam rotinas em segundo plano de forma automática assim que detectam outro aparelho compatível nas redondezas.
Como essas rotinas começam a processar as informações recebidas antes mesmo de checar a identidade do remetente ou solicitar a validação do usuário, cria-se uma janela de vulnerabilidade que pode ser violada antes de qualquer autenticação.

Pesquisadores do CISPA encontraram falhas no AirDrop e Quick Share que podem afetar bilhões de dispositivos. (Imagem: André Magalhães/Canaltech)
Resposta das fabricantes e correções em andamento
As gigantes da tecnologia já iniciaram a distribuição de correções. A Apple disponibilizou um patch que elimina uma das três falhas detectadas no AirDrop. O Google, por sua vez, sanou o erro de gerenciamento de memória (use-after-free) em sua aplicação do Quick Share para Windows e chegou a bonificar financeiramente os cientistas pela descoberta.
No que diz respeito à Samsung, as ocorrências específicas ainda passam por análise interna. Outras vulnerabilidades descobertas seguem um protocolo de correção por divulgação coordenada — uma tática de segurança que retém os dados técnicos do público até que as correções estejam prontas e todos os usuários fiquem protegidos.
Detalhes das vulnerabilidades mapeadas
O comportamento das falhas muda dependendo do sistema operacional:
- No ecossistema Apple (AirDrop): Foram mapeadas três brechas distintas. A primeira localiza-se no processo sharingd, que também gerencia funções como AirPlay, Handoff, Área de Transferência Universal e Câmera de Continuidade. O envio de uma requisição adulterada consegue travar esse serviço e, caso o ataque seja contínuo, inutiliza tais ferramentas.A segunda falha envolve o leitor de arquivos XML, que falha ao processar dados com estruturas excessivamente aninhadas (informações embutidas em múltiplas camadas). Pela falta de travas de segurança para conter esse processamento, um invasor pode enviar um arquivo hipercamadas, fazendo o aparelho esgotar a memória interna e travar. O bug afeta o iOS, macOS, watchOS, tvOS e visionOS.O terceiro problema está no interpretador HTTP, no qual cabeçalhos corrompidos geram uma falha de desreferenciamento de ponteiro nulo (null pointer dereference), provocando instabilidade no processamento.
- No ecossistema Android/Windows (Quick Share): As falhas mapeadas permitem contornar as barreiras de autenticação em celulares e tablets da Samsung, pois o sistema processa os dados imediatamente após o primeiro chamado de conexão, pulando a etapa final de validação das chaves de segurança UKEY2.Adicionalmente, o recurso aceita alguns pacotes de dados sem criptografia, o que possibilita ao invasor manter um canal de comunicação aberto. No programa do Google para Windows, foi isolado um erro de corrupção de memória do tipo use-after-free. Embora tais falhas não abram caminho para o roubo de arquivos confidenciais, elas conseguem interromper envios, desestabilizar funções do sistema e causar o travamento do dispositivo.

No total, foram encontradas seis falhas no AirDrop e no QuickShare. (Imagem: Reprodução/Apple)
Como alterar as configurações de privacidade do AirDrop e Quick Share
Modificar os parâmetros de visibilidade do AirDrop e do Quick Share é fundamental para bloquear interações indesejadas, já que manter essas ferramentas abertas para o público geral eleva consideravelmente a exposição do aparelho.
A recomendação de segurança é restringir o recebimento apenas para pessoas salvas na sua agenda ou desligar a função por completo quando não estiver utilizando. Veja o passo a passo para cada sistema:
No ecossistema Apple (iPhone, iPad e Mac)
- Acesse o aplicativo “Ajustes”;
- Vá até a opção “Geral”;
- Toque em “AirDrop”;
- Escolha “Apenas Contatos” ou marque “Recepção Inativa”.
No ecossistema Android (Quick Share)
- Deslize a tela para baixo para ver a barra de ferramentas rápidas;
- Pressione e segure o botão do “Quick Share”;
- Na seção “Quem pode compartilhar com você”, altere para “Apenas contatos” ou selecione “Ninguém”.

Você pode restringir quem pode enviar arquivos para o seu dispositivo pelo Quick Share. (Imagem: Captura de tela/Viviane França/Canaltech)





