A partir desta quinta-feira (21), cerca de 48 mil funcionários da Samsung Electronics na Coreia do Sul devem dar início a uma paralisação de 18 dias. O movimento surge após o colapso nas negociações sobre bônus de desempenho e acende um alerta internacional, dado o potencial de desestabilizar a logística global de semicondutores e a economia sul-coreana.
Os trabalhadores que cruzarão os braços atuam em fábricas de chips e correspondem a 38% de toda a força de trabalho da empresa no país. O impasse ocorre em um momento delicado de escassez global de memórias, agravada pelo forte crescimento do setor de inteligência artificial (IA).

Os funcionários envolvidos na ameaça de greve trabalham em fábricas de chips da Samsung na Coreia do Sul – Imagem: MZinchenko/Shutterstock
As demandas do sindicato e a posição da Samsung
O centro do desentendimento está nas regras de remuneração variável. Os trabalhadores exigem o fim do teto de bônus atual — limitado a 50% do salário anual — e querem que 15% do lucro operacional anual da companhia seja revertido em bonificações para a categoria.
Em nota oficial, a Samsung justificou a falta de consenso afirmando que “aceitar as demandas excessivas do sindicato minaria os princípios fundamentais da gestão da empresa”. A fabricante sugeriu conceder bônus temporários restritos ao ano de 2026, mas se recusou a extinguir o teto histórico. Esse posicionamento travou as discussões sobre como distribuir os lucros entre a divisão de memórias (altamente lucrativa) e os setores de chips de lógica (que operam em prejuízo).
“Gostaria de pedir desculpas ao público por não ser capaz de produzir um bom resultado, apesar de fazer tantas concessões quanto possível”, declarou o líder sindical Choi Seung-ho.
A insatisfação interna é alimentada pela disparidade salarial em relação à principal concorrente local, a SK Hynix. Segundo o sindicato, a rival eliminou o teto de bônus por uma década, fazendo com que seus funcionários recebessem valores três vezes maiores que os da Samsung em 2025 — cenário que motivou uma debandada de talentos e o aumento das filiações ao sindicato.
Impacto global e risco para o PIB sul-coreano
A Samsung detém sozinha 36% do mercado global de memórias DRAM. De acordo com projeções da KB Securities, os 18 dias de braços cruzados podem encolher a oferta mundial de DRAM entre 3% e 4%, e a de memórias NAND entre 2% e 3%.
Analistas apontam que o reflexo mais severo será no sentimento do mercado e na política de preços de longo prazo, elevando a pressão sobre os custos de eletrônicos no mundo todo.
No cenário doméstico, o impacto é alarmante, já que a Samsung representa quase 25% das exportações da Coreia do Sul. Um porta-voz do banco central alertou que, na pior das hipóteses, a greve pode reduzir em 0,5% o crescimento projetado de 2% do PIB do país para 2026. Essa retração equivale a uma perda de até 30 trilhões de won (cerca de R$ 100 bilhões) em produção de chips.
Intervenção governamental e medidas de contenção
Diante da gravidade da situação, as autoridades políticas subiram o tom. O primeiro-ministro, Kim Min-seok, indicou que o governo avalia acionar uma “arbitragem de emergência” para suspender a greve obrigatoriamente por 30 dias. O presidente sul-coreano, Lee Jae Myung, também criticou a postura dos trabalhadores, afirmando que o sindicato “atravessa a linha” ao exigir fatias do lucro operacional antes mesmo do desconto do imposto de renda.
Para diminuir os prejuízos imediatos, uma liminar judicial parcial determinou que as equipes consideradas essenciais continuem trabalhando nas plantas de Pyeongtaek e Hwaseong. A Samsung já comunicou ao sindicato que 7.087 operários precisam se apresentar ao trabalho para evitar danos permanentes aos maquinários e insumos de produção.
Paralelamente, o sindicato informou que a empresa já iniciou uma redução preventiva na movimentação de transportadores automatizados, reduzindo o fluxo em uma capacidade equivalente a 36 mil wafers de silício.





