O governo japonês fixou o objetivo ambicioso de integrar aproximadamente 10 milhões de autômatos dotados de inteligência artificial à rotina produtiva até o ano de 2040. O plano integra um programa governamental voltado a expandir a automação em 18 setores econômicos, buscando mitigar os impactos diretos do envelhecimento demográfico e a escassez crônica de profissionais no mercado de trabalho.
A iniciativa abrange frentes vitais como manufatura, saúde, transporte de cargas, construção civil, comércio varejista, segurança patrimonial, além da agroindústria alimentar e serviços de assistência a idosos. Para viabilizar a transição, a administração pública também investe na estruturação de bases de dados e em inovações de IA aplicada, permitindo que as máquinas aprendam a manusear tarefas complexas no ambiente físico.
O panorama populacional justifica a urgência da medida. De acordo com estimativas das Nações Unidas, o total de habitantes no Japão deve encolher para cerca de 112,2 milhões em 2040, ante os 119,6 milhões previstos para 2030, acompanhado por uma idade mediana de 54 anos e uma fatia de 35,3% de idosos com 65 anos ou mais.
Inovações em testes e robôs humanoides
A transição tecnológica já se reflete no surgimento de produtos comerciais. A startup nipônica Zeals revelou o D1, um modelo humanoide montado sobre rodas estruturado para atuação interna. Com 1,29 metro de altura, o equipamento conta com reconhecimento facial via câmera e dois membros superiores capazes de suportar cargas individuais de até 5 quilos.
Comercializado a partir de 5 milhões de ienes (aproximadamente US$ 32 mil), o plano da empresa contempla a fabricação de 100 exemplares até março de 2027, visando acumular 10 mil horas de funcionamento prático. O robô foi projetado para atuar em hospitais, redes hoteleiras, complexos fabris, armazéns logísticos e lares de repouso.
No mês de agosto, um centro de saúde em Nagoia avaliou o desempenho do D1 em funções como recepção de visitantes, recolhimento de louças e higienização de refeitórios. Para Masahiro Shimizu, principal executivo da Zeals, expor os dispositivos a cenários reais é fundamental para validar a utilidade prática fora dos centros de pesquisa.
Outra corporação local, a Kakuichi, programou a estreia de seu próprio autônomo, batizado de Miyazawa Noah, para abril de 2027. A unidade será testada em diferentes divisões corporativas, absorvendo novas funções de forma empírica.

O robô Miyazawa Noah será um dos primeiros a entrar em atividade nessa nova iniciativa (Reprodução/Kyodo)
Mercado de seguros e os desafios da expansão
A proliferação de autômatos autônomos no setor profissional abriu espaço para novos produtos no segmento financeiro. A seguradora Mitsui Sumitomo Insurance firmou aliança com a Zeals para disponibilizar apólices voltadas aos operadores do D1, contemplando estabelecimentos de saúde, hotelaria e logística.
As apólices buscam resguardar as organizações não apenas contra danos físicos decorrentes de colisões, mas também contra perdas materiais, invasões virtuais e extravio de informações sensíveis associadas ao ecossistema tecnológico. Em julho, a mesma seguradora adquiriu participação societária em uma companhia focada em inteligência física, buscando aprofundar o entendimento sobre o comportamento autônomo e os riscos operacionais inerentes.
Apesar da magnitude do projeto japonês, os reflexos econômicos de longo prazo ainda carecem de validação definitiva. Fatores como ganhos reais de produtividade, despesas de manutenção, segurança operacional e a real eficácia das máquinas precisarão ser confirmados à medida que os testes em larga escala avancem pelo país.





