O mistério dos US$ 10 milhões: por que o Google comprou dados de companhia aérea extinta?

O Google firmou um acordo de US$ 10 milhões (aproximadamente R$ 52 milhões) para comprar informações internas da Spirit Airlines, transportadora aérea dos Estados Unidos que fechou as portas em maio após falir. O acordo veio a público por meio de um registro oficial feito em 14 de agosto na Corte de Falências dos EUA para o Distrito Sul de Nova York.

O pacote adquirido engloba cerca de 100 milhões de e-mails corporativos e meio bilhão de mensagens do Microsoft Teams. Além disso, a transação abrange planilhas, agendas, estratégias de marketing, controles de receita, dados de voo, auditorias e relatórios de fraudes, junto com mais de 175 mil cadastros de colaboradores, alguns datados de 1986.

Foco em inteligência artificial

Em pronunciamento à CNN, um representante do Google confirmou a aquisição de um acervo de dados corporativos da antiga companhia aérea com o objetivo de aprimorar ferramentas e algoritmos de IA. A gigante tecnológica assegurou que nenhum dado de clientes faz parte da compra.

Antes de chegarem ao Google, os arquivos passam por uma etapa rigorosa de anonimização gerenciada por empresas externas. Ficaram totalmente de fora do negócio os dados de passageiros: não foram incluídos os perfis dos 97,5 milhões de clientes, nem os registros dos 52,4 milhões de membros do programa de milhagens ou dos 740 mil usuários de cartões de crédito associados à marca.

Apesar da remoção de dados pessoais identificáveis, o montante de mensagens e arquivos trabalhistas envolvidos ainda é expressivo, e especialistas questionam a total segurança da anonimização em um volume tão vasto.

A Spirit Airlines encerrou suas atividades em maio deste ano (Reprodução/David Syphers/Unsplash)

Disputa e próximos passos

Para arrematar o lote, o Google superou a proposta de US$ 7,5 milhões apresentada pela Mercor.io, startup de recrutamento focada em inteligência artificial. A concorrente permanece como alternativa caso o negócio atual sofra reviravoltas.

A palavra final sobre a transação pertence ao poder judiciário americano. O juiz Sean Lane, encarregado da falência, deve analisar a validação do contrato em audiência agendada para esta quarta-feira (19).

Um caso atípico no setor aéreo

Quando paralisou suas atividades em maio, a Spirit Airlines acumulava dívidas na casa dos US$ 8,1 bilhões, deixando 17 mil trabalhadores desempregados. Desde então, a massa falida tem liquidado seus bens, desde aviões e maquinário até os arquivos corporativos agora destinados ao Google.

O desfecho foge à regra do mercado. Geralmente, companhias aéreas insolventes são adquiridas por completo, junto com seus dados, por concorrentes que absorvem o negócio. A Spirit marcou a história recente dos EUA como a primeira grande empresa do setor em 25 anos a encerrar as atividades de vez sem ser absorvida por outra companhia.

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