A administração de Donald Trump tem direcionado fortes críticas ao setor tecnológico norte-americano devido à sua dependência de parceiros globais. Na Estratégia de Segurança Nacional de 2025, o governo estabeleceu a proteção de cadeias produtivas independentes como um pilar de sua política econômica, alertando que os Estados Unidos jamais devem se sujeitar a potências estrangeiras em relação a componentes essenciais. Essa preocupação se manifestou de maneira evidente no mercado de roteadores residenciais, setor em que a Casa Branca tem empreendido esforços expressivos para desvincular a infraestrutura de Wi-Fi de fabricantes de fora do país.
Em março de 2026, a Comissão Federal de Comunicações (FCC) proibiu a comercialização de roteadores de internet doméstica de origem internacional, sob o argumento de que agentes mal-intencionados exploram falhas de segurança nesses dispositivos para atacar lares americanos, comprometer redes, realizar espionagem e facilitar o roubo de propriedade intelectual. Apoiando-se em episódios recentes de ataques cibernéticos — como as operações atribuídas a grupos como Salt Typhoon, Volt e Flax —, a determinação da agência aponta que companhias estrangeiras produtoras de equipamentos podem inserir “portas dos fundos” (backdoors) em seus aparelhos, concedendo acesso irrestrito a agências de inteligência e hackers internacionais. Para coibir tais invasões, o governo pressionou a FCC a banir todo e qualquer roteador cujos componentes, processos de montagem ou projetos sejam realizados no exterior. Embora as empresas tenham permissão para continuar comercializando os modelos já disponíveis no mercado, a agência vetou a liberação de atualizações de software para esses dispositivos após 2027.
Contudo, a implementação da norma encontrou obstáculos práticos diante dos alertas de especialistas sobre a inviabilidade imediata da medida. Em maio, a FCC emitiu um aviso público estendendo até pelo menos 1 de janeiro de 2029 a permissão para que os roteadores continuem recebendo patches de software e firmware voltados à mitigação de riscos aos consumidores. A decisão ocorreu após pressões da Associação Nacional de Tecnologia de Consumo, que apontou gargalos críticos na oferta de substratos e módulos de memória, fatores que poderiam causar interrupções no serviço de banda larga de milhões de cidadãos. Críticos destacam que a revisão evidencia as contradições da diretriz, uma vez que a ausência de atualizações de segurança poderia gerar vulnerabilidades ainda maiores. Na prática, a construção de uma cadeia de suprimentos 100% nacional para esses dispositivos ainda parece distante da realidade.
Um panorama internacional

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O ecossistema americano de roteadores depende fortemente de parceiros do Sudeste Asiático para o desenvolvimento e obtenção de peças. A maior empresa do setor, a gigante chinesa TP-Link, tem sido alvo constante da FCC, com o governo tentando proibir a venda de seus produtos em 2025. Atualmente, a companhia responde por cerca de 35% do mercado de roteadores residenciais nos EUA, uma queda expressiva em relação aos mais de 60% registrados em 2024. Outra marca de destaque, a ASUS, tem sede em Taiwan e produziu o ZenWiFi Pro, avaliado como um dos melhores sistemas de rede mesh do mercado. Fabricantes como Synology e D-Link também operam a partir de território taiwanês e, portanto, encontram-se sob a alçada das restrições regulatórias.
Diante das novas regras, representantes da TP-Link reuniram-se com a FCC em busca de aprovação condicional, argumentando que estão investindo centenas de milhões de dólares para transferir a fabricação e as atividades de pesquisa e desenvolvimento para os Estados Unidos por meio de sua subsidiária na Califórnia. No entanto, o cumprimento da norma não se resume à simples realocação das linhas de montagem: as exigências da FCC aplicam-se a todos os produtos cujos processos de design ocorram no exterior, obrigando as companhias a moverem o escopo integral de suas operações para solo norte-americano ou solicitarem isenções formais.
O cenário é complexo a ponto de que nenhuma marca genuinamente americana atenda integralmente aos rigorosos padrões de fabricação nacional, já que todas dependem de parceiros internacionais para a produção de seus hardwares. A Google, por exemplo, fabrica seus roteadores Nest no Vietnã e na China, enquanto a Netgear divide sua produção entre Vietnã e Taiwan. Marcas como Ubiquiti e Amazon seguem a mesma lógica, e a Linksys — tradicional fabricante sediada na Califórnia — pertence à taiwanesa Foxconn e produz seus equipamentos no Vietnã.
Mesmo o sistema Starlink, da SpaceX, frequentemente apontado como um modelo de produção totalmente nacional com instalações em solo texano, mantém dependência de parceiros vietnamitas para o fornecimento de componentes de seus roteadores desde 2024.
O futuro incerto do mercado de roteadores

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O horizonte regulatório permanece nebuloso. As diretrizes vigentes proíbem a venda de novos roteadores estrangeiros desprovidos de aprovação prévia do governo dos Estados Unidos, embora permitam a comercialização do estoque já existente. Essa indefinição jurídica, somada à flexibilidade da FCC em estender prazos e conceder autorizações condicionais, gera incertezas para o setor.
Até o momento, pelo menos 11 companhias obtiveram isenções para comercializar seus aparelhos no país até 2027. A Netgear recebeu autorização para vender suas linhas mesh, móveis e tradicionais — incluindo as famílias Nighthawk e Orbi, além de modems a cabo. A Eero, pertencente à Amazon, e a Nokia também figuram entre as marcas beneficiadas por prorrogações temporárias, assim como a Arcadyan Technology, fornecedora de operadoras como T-Mobile, AT&T e Verizon. Com a emissão contínua de salvaguardas para outras companhias, o governo demonstra flexibilidade na aplicação gradual das restrições.
Analistas continuam questionando a lógica por trás das medidas punitivas. Defensores da regulamentação argumentam que a proibição falha em proteger consumidores que já possuem equipamentos de fabricação estrangeira em suas residências, enquanto a suspensão de atualizações de software eleva os riscos cibernéticos ao expor falhas sem correção. Segundo a Electronic Frontier Foundation, a ausência de diretrizes rígidas de execução e a concessão arbitrária de aprovações condicionais tendem a consolidar posições de grandes players e fortalecer acordos de benefício mútuo duvidosos no mercado.
Diante da profunda integração global da cadeia de componentes eletrônicos, a agência reguladora deverá continuar enfrentando resistências. Para muitos especialistas, a volatilidade e as exceções pontuais fazem parte da estratégia do governo: ao impor restrições gerais e abrir exceções por meio de aprovações opacas, a administração consegue bloquear concorrentes chineses ao mesmo tempo em que mantém os fabricantes sob forte controle político e regulatório.





