A inédita queima de caixa registrada pela Alphabet alarmou os acionistas que aguardam os balanços das demais gigantes tecnológicas, visto que os gastos vertiginosos com inteligência artificial pressionam as finanças de uma das companhias mais lucrativas do planeta — e a tendência é de agravamento.
A controladora do Google esvaziou seus cofres em US$ 5,9 bilhões no segundo trimestre, mesmo com o segmento de computação em nuvem registrando uma alta recorde de 82%. Como a empresa projeta investir mais US$ 15 bilhões em 2026 e prevê um novo salto para o ano seguinte, os desembolsos financeiros responsáveis por esse déficit tendem a crescer ainda mais.
O impacto financeiro escancara a transformação promovida pela IA no setor. Conhecidas historicamente por margens generosas e fluxos robustos de recursos, essas corporações agora recorrem a endividamento e emissão de ações para custear despesas que devem ultrapassar US$ 700 bilhões neste ano, superando a capacidade de geração de caixa.
Esse cenário intensificará o escrutínio sobre os resultados de Microsoft, Meta Platforms e Amazon. As ações das três empresas registraram quedas entre 2% e 4% nas negociações pré-mercado, com a Alphabet liderando as perdas ao recuar 5%. O movimento traduz o receio dos investidores de que as concorrentes sigam o mesmo caminho e elevem suas projeções de investimento, embora o retorno financeiro dessas aplicações demore a se concretizar.
“O risco pende para novas altas nos gastos, especialmente enquanto a Microsoft e outras empresas enfrentarem limitações de capacidade”, apontou Charu Chanana, estrategista-chefe de investimentos da Saxo Markets. “Porém, os acionistas passarão a questionar o volume de recursos que precisa ser reaplicado apenas para manter a competitividade, e se a receita gerada pela inteligência artificial conseguirá superar os custos de capital, depreciação e operação.”
Especialistas projetam que Alphabet e Amazon encerrem o ano consumindo caixa, enquanto o fluxo livre da Meta deve encolher 95,7%, limitando-se a US$ 1,85 bilhão. A Microsoft, cujo exercício fiscal termina em junho, deve registrar US$ 25,39 bilhões em caixa, menos da metade dos US$ 58,74 bilhões apurados no período anterior.
O indicador que mede a proporção da receita direcionada a investimentos (capex) deve quase dobrar neste ano fiscal: na Meta, saltará de 35,9% para 54,9%; na Alphabet, de 23% para 41%; na Microsoft, de 31% para 45%; e na Amazon, de 18% para 25%.
Crescimento do Google Cloud pressiona rivais
Outro fator que impõe pressão sobre Amazon e Microsoft é o desempenho acelerado do Google Cloud, cuja expansão superou a dos principais concorrentes nos trimestres recentes, indicando ganho de fatia de mercado. A demanda tem sido tão intensa que os dirigentes da Alphabet anunciaram planos de alugar infraestrutura de data centers de terceiros para atender à clientela, ainda que isso cause impacto negativo nas margens de lucro.
Como reflexo, pelo menos vinte corretoras elevaram os preços-alvo para as ações da Alphabet após a divulgação dos resultados, elevando a mediana para US$ 430, cerca de 26% acima do último fechamento. A instituição Citizens adotou a postura mais otimista, estipulando US$ 515, enquanto a TD Cowen manteve a projeção mais conservadora, em US$ 240.
“O desempenho do Google Cloud foi espetacular”, avaliou Richard Clode, gestor de portfólio da Janus Henderson Investors. “A Alphabet possui uma vantagem competitiva sólida que permeia toda a sua estrutura, desde os chips proprietários voltados para IA até a capacidade de distribuição para bilhões de usuários.”





