À medida que a inteligência artificial se espalha por praticamente todos os aspectos da vida digital, a falta dela pode acabar se tornando uma experiência premium pela qual muita gente estará disposta a pagar.
Conversando com leitores e pessoas comuns no dia a dia, percebo que existe um padrão sempre que o assunto é inteligência artificial.
O contraste chega a ser curioso: enquanto parte do universo da tecnologia e muitos dos chamados “especialistas” que publicam sem parar no LinkedIn com ajuda da própria IA fala constantemente sobre como ela está transformando o mundo e revolucionando a produtividade, a maioria das pessoas enxerga essa realidade de forma bem diferente.
Se fosse para resumir a reação do público em apenas uma palavra, ela seria:
Cansaço.
Com raríssimas exceções, quase todas as pessoas que não vivem mergulhadas no universo da tecnologia demonstram irritação sempre que a IA entra na conversa. Basta mencionar o tema para receber suspiros, olhos revirados ou expressões de impaciência.
Essa reação contrasta completamente com o entusiasmo promovido pela indústria de tecnologia e pelo pequeno grupo de defensores mais apaixonados da IA, que acabam reforçando a mesma narrativa entre si. E foi justamente essa diferença entre o que as empresas oferecem e o que os usuários realmente desejam que me levou a uma conclusão nesta semana.
A inteligência artificial pode, sim, criar um recurso extremamente valioso pelo qual as pessoas pagarão. Só que provavelmente não será aquele que a maioria das empresas está tentando desenvolver. Na verdade, será exatamente o contrário.
A ironia da IA em todo lugar
Já disse isso antes e continuo acreditando: em muitos aspectos, o Gemini a plataforma de IA generativa do Google — lembra bastante o antigo Google+.
É uma solução procurando um problema.
Pouca gente realmente pede por ela, e muitos usuários enxergam sua presença como algo invasivo e desnecessário. Ainda assim, o Google continua incorporando IA em praticamente todos os seus produtos e serviços.
Semana após semana, novos recursos baseados em inteligência artificial aparecem em aplicativos onde nem sempre fazem sentido. Em diversos casos, acabam sendo dispensáveis, pouco úteis ou até desconfortáveis, criando problemas reais tanto para usuários quanto para empresas.
E isso não acontece apenas com o Google.
Praticamente todas as grandes empresas de tecnologia estão seguindo o mesmo caminho. A prioridade parece ser incluir IA em qualquer espaço disponível, muitas vezes apenas para dizer que o recurso existe, em vez de realmente melhorar a experiência de quem utiliza esses produtos.
Como consequência, surge uma nova oportunidade de mercado: oferecer justamente uma experiência livre desse excesso de inteligência artificial.
O recurso mais desejado pode ser desligar a IA
Aqui está a grande ironia.
O recurso mais valioso relacionado à inteligência artificial talvez seja justamente a possibilidade de não utilizá-la ou, pelo menos, de decidir quando ela deve aparecer.
E isso não é apenas uma impressão.
Os sinais desse movimento começam a aparecer de forma bastante clara.
Um bom exemplo é o Kagi, mecanismo de busca focado em privacidade e livre de anúncios, que há alguns anos vem construindo uma alternativa ao Google.
O modelo é simples: o usuário paga uma assinatura mensal US$ 5 para uso limitado ou US$ 10 para pesquisas ilimitadas e recebe um buscador desenvolvido para atender seus interesses, não os objetivos de anunciantes nem estratégias corporativas ligadas à IA.
A experiência oferecida pelo Kagi é limpa, direta e eficiente. O destaque está justamente na ausência daqueles resumos produzidos por inteligência artificial que hoje ocupam o topo de muitas pesquisas no Google e cuja precisão nem sempre convence.
Em vez disso, o usuário encontra apenas os resultados que realmente procura, sem distrações ou interrupções. Como existe uma assinatura paga, toda a relação entre empresa e cliente muda: o foco deixa de ser publicidade e passa a ser qualidade da experiência.
Quando escrevi sobre o Kagi no início do ano passado, o serviço tinha cerca de 38 mil assinantes pagantes.
Hoje, segundo seus números públicos, essa base praticamente dobrou, ultrapassando 72 mil usuários.
Pode parecer um número pequeno diante do mercado global, e talvez continue sendo um nicho. Ainda assim, representa um crescimento consistente da demanda.
E o Kagi não está sozinho.
Sempre que o Google amplia a presença da IA em seu mecanismo de busca, o DuckDuckGo conhecido por priorizar privacidade e permitir um uso mais opcional da inteligência artificial também registra aumento no interesse dos usuários.
O mesmo sentimento aparece em outros serviços
Os buscadores são apenas um exemplo.
Cada vez mais pessoas demonstram incômodo com a integração obrigatória da IA em ferramentas de produtividade, como e-mail, aplicativos de anotações e editores de documentos.
Eu mesmo criei uma interface personalizada para o Google Docs no computador curiosamente usando o próprio Gemini para ajudar apenas para eliminar boa parte dos elementos extras adicionados pelo Google.
É uma solução improvisada, claro, mas também mostra que existe espaço para empresas criarem alternativas mais elegantes, assim como o Kagi fez com as pesquisas na internet.
As pesquisas também começam a confirmar essa percepção.
Um levantamento recente da Automattic, empresa responsável pelo WordPress, mostrou que 60% das pessoas enxergam referências à IA nas mensagens de uma marca mais como um fator negativo do que como um benefício.
Já uma pesquisa realizada com leitores da minha newsletter Android Intelligence revelou que apenas 9% gostam da presença constante de respostas produzidas por IA nas buscas da internet. Outros 26% afirmaram não gostar desse recurso, enquanto 64% disseram que tudo depende da situação, mas reconhecem que frequentemente ele atrapalha mais do que ajuda.
Uma oportunidade que pode crescer
Enquanto empresas continuam adicionando inteligência artificial a praticamente todos os produtos e novas startups seguem a mesma tendência, talvez a pergunta mais interessante não seja qual será o próximo grande avanço da IA.
Talvez a questão seja descobrir quais oportunidades surgirão para serviços que permitam reduzir sua presença ou simplesmente dar ao usuário o controle sobre quando utilizá-la.
É fácil imaginar plataformas como Kagi e DuckDuckGo oferecendo versões sem IA ou com IA totalmente opcional para ferramentas hoje dominadas por recursos automáticos, como Google Docs, Notion, Slack e diversos aplicativos de design.
Também é fácil imaginar muitas pessoas e empresas enxergando justamente essa ausência como um diferencial premium pelo qual vale a pena pagar.
Talvez esse mercado continue sendo relativamente pequeno em comparação às soluções mais populares. Ainda assim, para usuários e organizações insatisfeitos com o rumo que a tecnologia vem tomando e dispostos a investir em uma experiência mais limpa e controlada, essa pode se tornar uma tendência bastante interessante de acompanhar nos próximos anos.





