A construção da nova máquina nacional de supercomputação do Reino Unido já foi iniciada. Os idealizadores do projeto afirmam que, quando estiver concluído no final do próximo ano, este será o computador mais potente do país e um dos mais robustos de todo o planeta.
A infraestrutura será instalada em prédios da Universidade de Edimburgo, nos arredores de Penicuik e Roslin (Midlothian), bem próximo ao instituto onde a ovelha Dolly foi clonada.
Trata-se de um avanço marcante para um projeto que chegou a ser engavetado pelo governo britânico quando o Partido Trabalhista assumiu o poder, sendo reativado cerca de um ano depois.
O Que É um Supercomputador?
A equipe responsável pelo equipamento e os cientistas que pretendem utilizá-lo estão entusiasmados com a iniciativa. Como o próprio termo sugere, trata-se de uma máquina de altíssimo desempenho, com números impressionantes.
O professor Mark Parsons, diretor do projeto na universidade, detalha que o computador ocupará uma área equivalente à de um supermercado de médio porte. Equipado com milhares de processadores, ele terá capacidade para realizar um quintilhão de operações por segundo (o número 1 seguido de 18 zeros: 1.000.000.000.000.000.000).
De acordo com Parsons, a máquina servirá para que cientistas e empresas privadas consigam “simular o mundo real”. Isso será feito por meio do processamento de imensos volumes de dados para criar modelos digitais de fenômenos difíceis de serem reproduzidos em um laboratório físico.
“Os supercomputadores modelam eventos que ocorrem rápido demais, como a física quântica; que possuem proporções gigantescas, como um terremoto; ou que demandam tempo demais, como a expansão cosmológica”, acrescentou o professor.
Qual Será a Função do Novo Equipamento?
O atual supercomputador nacional do Reino Unido — o ARCHER2 —, que fica no mesmo local, será desativado no fim deste ano. Em sua trajetória, ele ajudou a Rolls Royce a projetar motores de aeronaves, auxiliou no desenvolvimento de materiais para celulares e integrou os esforços mundiais na contenção da Covid-19.
A nova máquina — de propriedade da agência UKRI — será 50 vezes mais potente. Parsons destaca que ela solucionará problemas que seriam “simplesmente impossíveis de resolver em outros computadores”. O sistema dará suporte ao avanço da computação quântica e fará projeções sobre as mudanças climáticas. O diretor convida a comunidade científica britânica a “trazer ideias sobre o que desejam testar”.
Como a estrutura consumirá muita eletricidade, o excedente de calor gerado pelo data center será reaproveitado para aquecer as instalações da universidade e, potencialmente, residências da vizinhança.
Decifrando os Mistérios do Universo
Entre os pesquisadores na fila para usar o sistema está o professor Joe Zuntz, astrofísico da Universidade de Edimburgo. Ele explica que a ciência precisa de mais capacidade de processamento para interpretar o volume de dados coletado por telescópios de última geração.
Zuntz, que trabalha com o telescópio Vera C. Rubin no Chile, costuma passar semanas transferindo dados de um lado para o outro com supercomputadores nos Estados Unidos. Agora, ele terá uma máquina desse porte bem ao seu lado, dedicada à ciência britânica.
Os cosmólogos estão debruçados sobre grandes dilemas. O professor menciona que a ciência sabe há cerca de 25 anos que o universo está se expandindo de forma acelerada — ou seja, ficando cada vez mais rápido.
“Não fazemos ideia do motivo, e estamos tentando descobrir o porquê”, revelou Zuntz.
O momento atual é de grande expectativa, pois há indícios de que esse ritmo esteja mudando, como se “alguém estivesse tirando o pé do acelerador”. O novo supercomputador permitirá analisar as informações necessárias para responder a essa questão.
O Impasse Político e o Financiamento
O projeto conta com um aporte de £ 750 milhões do governo do Reino Unido. Inicialmente, a verba havia sido garantida pela gestão anterior, do Partido Conservador, mas acabou suspensa em agosto de 2024, após a vitória dos Trabalhistas no Parlamento.
Na época, a nova administração alegou que os £ 1,3 bilhão prometidos pelos conservadores para o setor de tecnologia (incluindo o supercomputador) eram um “compromisso sem fundos reais”. Parsons brinca, com uma dose de ironia, que não foi uma tarefa agradável dar essa notícia ao seu superior. Contudo, em junho do ano seguinte, o governo voltou atrás e liberou a verba.
Kanishka Narayan, ministro de Segurança Online e IA do governo, declarou à BBC:
“Edimburgo e a Escócia têm sido o berço da pesquisa em computação de ponta há décadas. Este supercomputador foi projetado para gerar impactos práticos — seja na saúde, garantindo a descoberta de curas para novas enfermidades, ou no setor aeroespacial, impulsionando inovações. É um momento histórico para a Escócia e para todo o Reino Unido.”





