Uma investigação da Resonant (plataforma de inteligência da Tempest Security Intelligence) revelou uma modalidade sofisticada de fraude no Brasil. O esquema combina engenharia social e tecnologia para enganar candidatos a emprego e utilizar seus dados em financiamentos veiculares fraudulentos.
Como o golpe funciona: O falso recrutamento
Os criminosos criam sites de recrutamento com aparência profissional — muitas vezes utilizando inteligência artificial para gerar layouts convincentes. Eles utilizam nomes de empresas reais ou criam marcas fictícias para atrair vítimas.
O processo segue etapas calculadas:
- O Cadastro: O usuário é convencido a baixar um aplicativo malicioso após preencher um formulário inicial.
- A Triagem: Os golpistas aprovam manualmente o acesso ao app, filtrando apenas as vítimas que possuem o perfil financeiro desejado.
- O Uso da CNH: As vagas oferecidas são focadas em transporte e logística. Isso torna o pedido da Carteira Nacional de Habilitação (CNH) algo aparentemente legítimo dentro do processo seletivo, quando, na verdade, o documento é essencial para a abertura do crédito.
A armadilha tecnológica: O roubo da biometria
O ponto crítico da fraude ocorre no momento da “validação de segurança”. O aplicativo solicita que o usuário faça um reconhecimento facial para “acompanhar o status da vaga”.
Internamente, o app utiliza uma técnica chamada WebView para abrir o site oficial de uma instituição financeira de forma oculta. Através de scripts em JavaScript, o aplicativo altera a interface do banco em tempo real:
- Termos como “financiamento” e “taxas” são removidos.
- A página é mascarada para parecer uma etapa do Banco Nacional de Empregos (BNE).
- Enquanto o usuário olha para a câmera acreditando ser um teste de identidade, o sistema está, na verdade, autenticando a assinatura de um contrato de financiamento em segundo plano.
Espionagem e controle remoto
Além do prejuízo financeiro, a análise técnica da Resonant descobriu que o app é uma ferramenta de espionagem. Ao ser instalado, ele solicita permissões para:
- Gravar áudio e acessar a câmera.
- Rastrear a localização via GPS.
- Ler arquivos internos do dispositivo.
O uso do Firebase Cloud Messaging permite que os criminosos enviem comandos remotos para o celular, mantendo o controle sobre o aparelho mesmo que o aplicativo não esteja aberto.
Dados da Operação
Os pesquisadores mapearam a infraestrutura do golpe, identificando:
- 19 versões diferentes do aplicativo malicioso.
- 4 servidores de controle (IPs).
- 10 domínios falsos utilizados para atrair as vítimas (como rhrecrutabrasil.com, rhrecrutaselecao.com e rhrecruta.net).
As empresas cujos nomes são abusados no golpe não possuem vulnerabilidades técnicas; elas são vítimas da utilização indevida de suas marcas para conferir credibilidade à fraude.





