Atividades voltadas a vendas, suporte ao consumidor, programação de computadores e a advocacia em estágio inicial figuram entre os segmentos que sofrerão os impactos mais imediatos com a expansão da inteligência artificial no mercado profissional.
A advertência partiu de Bill Gates, um dos fundadores da Microsoft, em um artigo divulgado nesta quarta-feira (26) e em declarações concedidas ao jornal New York Times, com especial preocupação direcionada aos profissionais mais jovens.
Setores que enfrentarão mudanças iniciais
No material de quase 6 mil palavras lançado em sua página oficial, Gates destaca que postos voltados a iniciantes e colaboradores de nível intermediário enfrentam a maior vulnerabilidade. Funções comerciais, centrais de atendimento digital ou telefônico, engenharia de software e serviços jurídicos básicos despontam como alvos principais de transformação em curto prazo.
O horizonte de automação tende a se expandir. O executivo ressalta que funções tradicionalmente desempenhadas por especialistas — a exemplo de avaliações de crédito, tabulação de dados e triagem hospitalar — também passarão a ser assumidas por ferramentas tecnológicas.
Adicionalmente, o bilionário antecipa reflexos no mercado de trabalho braçal. Robôs com maior versatilidade operacional deverão disputar espaço com operários da construção civil e profissionais de hotelaria antes do encerramento desta década, à medida que a fabricação e implantação desses equipamentos se tornem mais acessíveis.
O peso da transição sobre a juventude
Com base em dados preliminares, Gates aponta que a taxa de ocupação já sofreu quedas expressivas entre jovens inseridos em atividades suscetíveis à substituição digital, um fenômeno ausente entre faixas etárias mais seniores. Para o analista, essa parcela da população lida com uma retração na oferta de vagas iniciais justamente no momento em que busca estabelecer sua trajetória profissional.
O empresário rejeita paralelismos com saltos tecnológicos do passado, que historicamente geravam mais postos do que extinguiam no longo prazo. Na visão dele, a inteligência artificial atua substituindo diretamente o raciocínio humano, e não apenas auxiliando-o, o que acelera e amplia a escala do descolamento de mão de obra.

Bill Gates deixou a Microsoft em 2020, após quase 45 anos na companhia (Reprodução/@thisisbillgates/Instagram)
Áreas protegidas e regulação fiscal
Como alternativa parcial para mitigar o cenário, Gates sugere a criação de espaços laborais exclusivos para pessoas, sob o rótulo de “Human Reserved”. A premissa tem raízes em vivências pessoais, inspirada nos profissionais que prestaram assistência a seu pai, falecido em 2020 devido ao mal de Alzheimer.
Segundo o raciocínio, determinadas ocupações devem permanecer protegidas por motivos socioeconômicos — evitando desemprego em massa sem alternativas de absorção — ou pela natureza da própria atividade, como a transmissão de diagnósticos médicos delicados.
Paralelamente, o cofundador da Microsoft defende a instituição de uma “taxa de tokens”, tributando o volume de processamento de inteligência artificial e o emprego de robôs corporativos. O objetivo é equilibrar o ônus financeiro, visto que a contratação de pessoal carrega encargos sociais, enquanto investimentos em automação costumam ser deduzidos de forma ágil como despesas operacionais.
Por fim, o empresário criticou o otimismo ingênuo de parte do ecossistema tecnológico em relação à autorregulação, apontando que interesses comerciais muitas vezes silenciam executivos sobre os perigos reais do uso mal-intencionado da tecnologia, como em crimes digitais ou armamentos biológicos, defendendo pactos globais de fiscalização.





