O YouTube atualizou as diretrizes do seu Programa de Parcerias (YPP) com o propósito de refinar os parâmetros de repasse de receita para materiais classificados como artificiais, repetitivos ou gerados em escala industrial. A alteração mira diretamente os fenômenos conhecidos como “AI slop” e “brainrot”, que consistem na publicação em massa de vídeos sem a devida intervenção humana criativa.
Apesar da restrição, a plataforma não baniu o uso de inteligência artificial, mas passou a exigir evidências concretas de originalidade e esforço autoral. Canais que utilizam apenas vozes sintetizadas sem análises adicionais, colagens de imagens recicladas ou formatos padronizados correm o risco de perder o acesso aos ganhos publicitários.

YouTube endurece regras de monetização para combater vídeos repetitivos e produzidos em massa com inteligência artificial. (Christian Wiediger/Unsplash)
O Impacto e o Mercado dos Vídeos Automatizados
O crescimento dessa categoria tem sido expressivo na plataforma. Dados de uma análise da Kapwing revelam que até um terço dos vídeos exibidos para novos perfis podem pertencer a esse grupo automatizado, índice que se repete no feed dos Shorts.
Alguns exemplos de grande alcance financeiro destacados pelo levantamento incluem:
- Canal Indiano (Bandar Apna Dost): Focado em dramas gerados por IA envolvendo animais e humanos, com faturamento anual estimado em milhões de dólares.
- Canal Sul-Coreano (Three Minutes Wisdom): Produções fictícias de vida selvagem e pets, também com receitas milionárias.
- Canais de Destaque Global: Plataformas em espanhol e coreano lideram em visualizações e inscritos com quizzes e histórias automatizadas.
A justificativa da empresa é preservar a experiência do público, proteger a credibilidade junto aos anunciantes e garantir que criadores tradicionais — que dedicam tempo a roteiros, edição e identidade visual — não sejam prejudicados pela concorrência em massa. Curiosamente, a iniciativa caminha lado a lado com o desenvolvimento de tecnologias de IA pelo próprio Google, a exemplo de geradores de mídia baseados em comandos de texto.

Canais de “AI slop” já movimentam milhões de dólares no YouTube. (Viviane França/Canaltech)
As Três Categorias Sob Observação
Para direcionar os ganhos a quem entrega valor real, o YouTube passou a focar em três grupos específicos de vídeos problemáticos:
- Conteúdo Genérico e Repetitivo (“Content Farming”): Canais que publicam milhares de vídeos quase idênticos focando apenas no volume para maximizar cliques em tendências.
- Exploração Emocional: Materiais que apelam para situações sensíveis ou alarmantes, a exemplo de simulações de resgates de animais ou conteúdos que expõem crianças ao sofrimento.
- Personas de IA em Temas Sensíveis (YMYL): Avatares sintéticos que discutem áreas críticas como saúde, finanças e leis, onde dados incorretos podem gerar prejuízos reais aos espectadores.
Prazos e Processo de Revisão
Caso um canal seja desmonetizado por descumprir as diretrizes, o responsável disporá de 21 dias para apresentar um recurso. Se a penalização for confirmada, a reinclusão no programa só poderá ser solicitada após 90 dias, desde que os arquivos inadequados sejam apagados e o perfil sofra reformulações.
A companhia reitera que a tecnologia continua sendo bem-vinda para auxiliar os autores, desde que a marca humana e o trabalho original permaneçam no centro das produções.

O YouTube começou a restringir a monetização de vídeos repetitivos, produzidos em massa e criados para chamar atenção. (Zulfugar Karimov/Unsplash)





