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De volta à Netflix: Por que o Watchmen de Zack Snyder ainda gera tanta discussão?

Embora os anos 2000 sejam facilmente lembrados pela consolidação de super-heróis de massa como Homem-Aranha (2002), X-Men (2000) e Hulk (2003), aquela também foi uma década de forte experimentação com narrativas adultas. Títulos como Blade II (2002), Demolidor (2003) e Hellboy (2004) começaram a mostrar o “outro lado da moeda” das histórias em quadrinhos.

Na esteira de produções como Batman Begins (2005), Hollywood buscava imprimir uma atmosfera mais sombria, realista e, por vezes, flertando com o terror nessas adaptações. A indústria queria provar que o universo dos gibis ia muito além do maniqueísmo clássico do “bem contra o mal” e de combates coloridos — algo que os leitores de HQ já sabiam há décadas.

Foi nesse cenário que o diretor Zack Snyder (então consagrado por 300 e Madrugada dos Mortos) surgiu com a ousada missão de adaptar Watchmen. Baseada na icônica graphic novel do fim dos anos 1980, a trama apresenta uma sociedade fraturada, ambientada em um mundo polarizado onde os supostos protetores da humanidade são, na verdade, uma ameaça constante.

A narrativa trazia dilemas complexos: como a sociedade reagiria a um homem capaz de controlar toda a matéria existente, ou a um indivíduo com o intelecto mais avançado do planeta? O cerne da história forçava o público a refletir sobre o peso de habilidades divinas em mãos humanas, sintetizado no célebre questionamento: “Quem vigia os vigilantes?”

Desconstruindo o heroísmo: O choque cultural nas telas

Longe de apresentar o “sonho americano” ou o heroísmo idealizado da DC e da Marvel, Watchmen expôs figuras profundamente humanas e corrompidas. Por trás das máscaras e do verniz do estrelato, o grupo de justiceiros agia sem qualquer freio moral. A trama não se esquivava de abordar temas pesados como abuso sexual, depravação, preconceito e crimes diversos. Em retrospecto, a obra pavimentou o caminho para que produções contemporâneas, como a série The Boys, pudessem existir.

Até então, o público já aceitava heróis imperfeitos ou violentos, como o Batman ou o Justiceiro, mas ninguém estava preparado para o nível de cinismo e crueza proposto por Alan Moore. Era o retrato nu e cru de como a humanidade se comportaria se ganhasse superpoderes — e o resultado não era nada bonito.

Enquanto os leitores sabiam o que esperar, o público geral sofreu um verdadeiro choque cultural. Em uma época moldada por Superman, Homem-Aranha e pelo recém-nascido Homem de Ferro (2008), o longa de Snyder quebrou paradigmas. Mesmo recebendo a classificação indicativa para maiores de 18 anos, o filme acabou sendo consumido em massa por jovens e adolescentes ao redor do mundo, impulsionado pela era do DVD e da pirataria. O impacto foi inevitável, mas as maiores controvérsias do longa estavam nas decisões criativas da adaptação.

As grandes polêmicas e as mudanças no final

Aviso de Spoiler: O trecho a seguir detalha eventos cruciais do desfecho de Watchmen.

O clímax de Watchmen nos quadrinhos é considerado uma obra-prima do roteiro. Ozymandias, tido como o homem mais inteligente do mundo e antigo aliado dos heróis, revela-se o grande arquiteto de uma conspiração global. Para forçar a paz mundial entre Estados Unidos e União Soviética, ele isola o Doutor Manhattan em Marte e orquestra o surgimento de uma criatura alienígena gigante no centro de Nova York. A destruição em massa e a ameaça de outro mundo unem as potências rivais contra um inimigo comum, ao custo de milhões de vidas inocentes — um preço que Ozymandias considerava aceitável.

Na adaptação de 2009, Zack Snyder decidiu trocar o monstro interdimensional por uma explosão termonuclear que incrimina diretamente o Doutor Manhattan, visando manter o tom mais “pé no chão” do filme. Embora o conceito de união pelo medo tenha permanecido o mesmo, a alteração gerou revolta entre os puristas, que acusaram a produção de simplificar o enredo para agradar o grande público.

A romantização de Rorschach

Outro ponto de forte atrito foi a caracterização de Rorschach. Na obra original de Alan Moore, ele é concebido como um extremista repugnante, preconceituoso e com uma psicologia completamente destruída, servindo como uma crítica severa ao vigilantismo fascista e autoritário.

No filme, contudo, ele ganhou contornos de um anti-herói fascinante, esteticamente semelhante ao Batman, por mais violento que fosse. Essa romantização gerou uma legião de fãs que passaram a admirar o personagem, esvaziando o propósito crítico original de Moore e aprofundando o abismo entre os leitores da HQ e os espectadores do cinema.

O peso do estilo visual e a ira do criador

Os maneirismos estéticos de Zack Snyder também dividiram opiniões. O uso constante de câmeras lentas, a saturação de cores e a recriação literal de painéis dos quadrinhos foram aplaudidos por alguns como fidelidade visual, mas criticados por outros que enxergaram um esvaziamento do peso dramático em prol de efeitos visuais caros — uma assinatura do diretor que continuaria a gerar debates em trabalhos futuros, como Liga da Justiça e Rebel Moon.

Ninguém, no entanto, expressou mais descontentamento do que o próprio criador da história. Alan Moore, famoso por abominar qualquer adaptação de suas propriedades intelectuais, foi extremamente vocal contra o filme. Para o escritor, sua graphic novel foi feita para ser infilmável. Moore acusou Hollywood de retirar a camada de desconstrução da obra para transformar seus personagens em figuras “estilosas” e comerciais, tornando Watchmen apenas mais um filme comum de super-heróis.

Afinal, vale a pena assistir?

De volta ao catálogo da Netflix, Watchmen continua sendo um projeto cinematográfico fascinante e rico em discussões morais. Para quem nunca leu a graphic novel, o longa funciona muito bem de forma isolada, entregando uma experiência divertida, madura e intrigante — bastando o cuidado de manter o público menor de idade longe da tela devido ao teor de suas cenas.

Por outro lado, para os leitores mais exigentes da obra original, a experiência pode ser frustrante. Nesses casos, o mais indicado pode ser buscar a aclamada série da HBO de 2019, que funciona como uma continuação direta dos quadrinhos, ou explorar as expansões oficiais da DC Comics nas páginas, como O Relógio do Juízo Final.

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