Um levantamento realizado pelo Tech Transparency Project (TTP) e divulgado nesta terça-feira (8) revelou que o Facebook, o Instagram e outras redes da Meta veicularam mais de 350 anúncios contendo exploração sexual infantil gerada ou alterada por inteligência artificial desde o fechamento de 2025. Parte dessas mídias empregava registros fotográficos genuínos de menores coletados na rede, que passavam por softwares de IA para ganhar conotação sexual.
Os achados foram reportados às agências governamentais americanas competentes no combate à exploração de menores. O fator mais alarmante da situação é que os materiais não consistiam apenas em postagens comuns de usuários, mas sim em campanhas pagas que burlaram os filtros de triagem da própria gigante tecnológica, a qual defende realizar auditorias em mídias, textos e links antes da liberação.
Origem das imagens e foco em aplicativos
De acordo com o TTP, a maior parte do conteúdo seguia um padrão visual explorando fotos reais de crianças e adolescentes obtidas em mídias sociais, páginas da web e bancos de dados públicos. Um dos episódios relatados envolvia um retrato divulgado formalmente por uma monarquia europeia, cuja preservação da identidade foi mantida. Outras imagens correspondiam a jovens com perfis abertos nas próprias plataformas da Meta.
A grande parcela dessas campanhas publicitárias redirecionava os internautas para softwares voltados à manipulação ou criação de mídias visuais por inteligência artificial, totalizando cerca de 300 dos 350 casos apontados. Vários desses programas possuíam vínculos comerciais ou laços de desenvolvimento com corporações chinesas.

Facebook e Instagram estão entre as plataformas da Meta nas quais pesquisadores encontraram anúncios associados a ferramentas de geração de imagens por IA (Marcelo Fischer/Canaltech)
Ação tardia da Meta e falhas de moderação
Os mecanismos de filtragem da empresa deveriam ter bloqueado o material antes da publicação, visto que a corporação possui diretrizes rígidas contra exploração infantil e emprega automação na checagem prévia. Contudo, o TTP constatou que 332 anúncios ultrapassaram a barreira de análise.
No dia 1 de setembro, mais da metade ainda permanecia acessível na Biblioteca de Anúncios. Somente após o alerta formal dos pesquisadores é que a Meta deletou os 149 registros restantes. Além disso, constatou-se falha na taxonomia: 113 postagens haviam sido catalogadas inicialmente apenas por infrações a políticas de conteúdo adulto, omitindo o envolvimento de menores até que a inconsistência fosse contestada.
Veículos de imprensa, como a publicação WIRED, também registraram instâncias em que denúncias ignoradas mantiveram conteúdos ativos por dias, acumulando centenas de visualizações antes da exclusão definitiva.
Alcance global e resposta das empresas
Registros públicos indicam que as campanhas atingiram mais de 29 mil perfis na União Europeia e aproximadamente 7 mil no Reino Unido, além de centenas de inserções identificadas nos Estados Unidos, Austrália e Índia, podendo haver subnotificação devido às limitações geográficas da ferramenta de transparência da empresa.
Em posicionamento enviado à imprensa, a Meta alegou que grande parte das peças possuía baixa visualização, gerou menos de US$ 5 mil em receita e que o material já havia sido retirado do ar. A companhia reforçou o veto a ferramentas de desnudamento e argumentou que agentes mal-intencionados atualizam constantemente suas táticas para burlar as defesas digitais.
Em reflexo ao caso, a Apple e o Google agiram para banir cerca de 50 aplicativos associados a essas campanhas de suas respectivas lojas virtuais, aplicando restrições adicionais contra softwares de alteração de imagem. O episódio também atraiu o escrutínio imediato de legisladores e órgãos fiscalizadores nos Estados Unidos e na Austrália.





