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Inteligência artificial gera o genoma completo de um vírus de forma inédita

FOTO: REPRODUÇÃO/FUSION MEDICAL ANIMATION/UNSPLASH

Em um avanço histórico para a biologia sintética, cientistas da Universidade Stanford e do Arc Institute, nos Estados Unidos, conseguiram desenhar o genoma integral de agentes virais utilizando inteligência artificial. O estudo foi divulgado na edição desta quinta-feira (6) da renomada revista Science, atraindo ampla atenção da comunidade científica.

Os microrganismos gerados são bacteriófagos, entidades restritas a infectar bactérias que não oferecem perigo à saúde humana. Durante os testes práticos, uma mistura desses agentes sintéticos foi capaz de destruir cepas de E. coli resistentes a vírus tradicionais — superando a eficácia de tratamentos convencionais com fagos.

Embora o experimento não tenha abordado patógenos humanos ou ameaças à nossa espécie, a conquista intensificou as discussões sobre biossegurança, visto que metodologias voltadas para a cura podem, em tese, ser reinterpretadas para aplicações perigosas.

O funcionamento da IA na concepção dos vírus

Batizada de Evo, a arquitetura tecnológica empregada opera de forma análoga aos grandes modelos de linguagem. No lugar de antecipar o próximo termo de uma sentença, o algoritmo foi treinado para mapear estruturas de DNA formadas pelas bases nitrogenadas A, C, G e T.

Conforme reportado pela emissora BBC, as versões Evo1 e Evo2 assimilaram dados genéticos extraídos de diversos reinos, incluindo plantas, animais e bactérias, sendo posteriormente especializadas no universo dos bacteriófagos a partir de uma base de dados com cerca de 2 milhões de amostras.

Para mitigar riscos, sequências de patógenos nocivos a humanos, animais e plantações foram omitidas do treinamento do algoritmo.

Com base nesse repertório, a tecnologia concebeu milhares de propostas de genomas integrais. Desse total, os pesquisadores sintetizaram 302 variações em laboratório, introduzindo-as em estruturas bacterianas para verificar sua viabilidade.

A taxa de sucesso inicial foi modesta: apenas 16 estruturas se revelaram funcionais, demonstrando capacidade de replicação idêntica à de organismos naturais.

O vírus criado com IA em Stanford não apresenta riscos aos seres humanos (Reprodução/CDC/Unsplash)

Impactos e novos horizontes na medicina

Até o momento, a inteligência artificial vinha sendo empregada na análise de sequências isoladas ou no desenvolvimento de compostos farmacológicos, como antibióticos. O diferencial desta pesquisa reside na capacidade da ferramenta de estruturar o código completo de um organismo viável fora do ambiente digital.

Esse marco promete impulsionar os estudos sobre a terapia fágica, alternativa promissora no combate a infecções bacterianas crônicas que já não respondem aos antibióticos tradicionais.

A proposta futura é projetar vírus sob medida para neutralizar estirpes resistentes. Contudo, especialistas como o professor Tom Ellis, do Imperial College London, ressaltam que o sucesso atual com bacteriófagos — cuja estrutura é relativamente simples — evidencia a grande complexidade técnica necessária para avançar rumo a genomas mais complexos.

Debates em torno da biossegurança

O progresso tecnológico introduz o dilema do uso duplo, cenário onde uma mesma inovação carrega potencial tanto benéfico quanto destrutivo. Os responsáveis pela pesquisa sugeriram o acompanhamento contínuo de especialistas em segurança biológica em iniciativas semelhantes.

Em artigo complementar publicado na Science, pesquisadores da Universidade Johns Hopkins apontaram que, embora a capacidade técnica da IA generativa para criar genomas já seja uma realidade, as diretrizes globais de governança ainda carecem de maturidade.

Enquanto alguns analistas avaliam que o risco de criação autônoma por IA ainda é inferior ao perigo de modificação de patógenos já existentes, outros, como a pesquisadora Filippa Lentzos (King’s College London), defendem barreiras de proteção rigorosas que vão desde o desenvolvimento algorítmico até a etapa de fabricação do material genético em laboratório.

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