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Meta obteve lucro com veiculação de propagandas sobre exploração infantil criadas por inteligência artificial

FOTO: MARCELO FISCHER/CANALTECH

Aviso: O trecho a seguir aborda temas sensíveis relacionados a abuso sexual infantojuvenil e relata de forma factual a presença desse tipo de material em campanhas pagas, sem exibir quaisquer arquivos ou trechos explícitos.

A corporação de tecnologia comandada por Mark Zuckerberg permitiu a circulação e obteve faturamento com dezenas de impulsionamentos publicitários contendo mídias de abuso sexual de menores produzidas por inteligência artificial. A denúncia foi publicada pela revista Wired, com base em dados levantados pelo grupo investigativo Tech Transparency Project (TTP).

De acordo com o levantamento, o material esteve ativo no ecossistema da big tech — incluindo Facebook, Instagram, Messenger e Threads — em um intervalo entre novembro de 2025 e agosto de 2026. Algumas dessas campanhas continuavam no ar pouco antes da divulgação do caso.

Mais de 50 Campanhas Irregulares Identificadas

O monitoramento do TTP mapeou mais de 50 peças em formato de imagem e vídeo hospedadas na própria biblioteca de anúncios da Meta, o repositório público de transparência da companhia.

Vários dos criativos direcionavam os internautas para softwares de “nudificação”, utilitários capazes de simular nudez sobre imagens reais de pessoas.

Em entrevista à Wired, a diretora do TTP, Katie Paul, pontuou que os criativos publicitários não tentavam ocultar a gravidade do que divulgavam. Ela destacou que os anúncios passaram por etapas de revisão e validação interna da própria empresa antes da publicação, o que difere de postagens orgânicas feitas por usuários comuns.

Embora a companhia tenha alegado baixa audiência para boa parte do material, pelo menos um dos anúncios alcançou 2.563 perfis em nações europeias (como França, Alemanha, Reino Unido e Itália). Os alvos das campanhas englobavam consumidores nos Estados Unidos e em países da Europa, sendo que algumas peças miravam exclusivamente o público masculino.

A reportagem também apontou que novos anúncios chegaram a ser veiculados mesmo após o contato inicial da imprensa com os representantes da Meta, evidenciando falhas recorrentes nos mecanismos automatizados de filtragem.

Boa parte dos lucros da Meta vêm dos anúncios em suas plataformas (Marcelo Fischer/Canaltech)

Precedente Recente e Falhas de Moderação

A situação ecoa um escândalo semelhante divulgado em julho pela rede britânica BBC, que flagrou propagandas no Instagram comercializando mídias de abuso infantil na Índia por valores irrisórios (cerca de R$ 6), com direcionamento para grupos externos no Telegram.

Especialistas alertam que a recorrência dessas falhas questiona a rigidez dos filtros da Meta. O TTP reportou a localização de peças idênticas a outras que já haviam sido banidas anteriormente pela própria plataforma por infringirem as diretrizes contra exploração de menores.

Os perfis patrocinadores geralmente possuíam histórico nulo ou escasso de seguidores, com indícios de vínculos corporativos na China. Um dos serviços citados, o aplicativo MaskAI, acabou banido da App Store da Apple após questionamentos da equipe da Wired.

O Modelo de Negócios e a Resposta da Meta

O mercado publicitário sustenta quase a totalidade do modelo financeiro da Meta. Balanços financeiros recentes mostram que cerca de 98% dos US$ 200 bilhões arrecadados pela empresa vieram de anúncios comerciais.

Por meio de nota oficial enviada à imprensa, a Meta classificou o abuso sexual como um ato inaceitável e declarou combater com rigor tais práticas em seus serviços. A companhia argumentou que a maior parte dos conteúdos teve impacto restrito e que várias publicações já haviam sofrido sanções antes do alerta jornalístico.

A organização também justificou que parte das mídias é anterior a uma ferramenta de IA recém-implantada para interceptar publicidade irregular no instante do envio. Conforme balanço da própria empresa, mais de 36 milhões de registros associados à exploração de menores foram banidos nos últimos doze meses, além do acionamento judicial de criadores de aplicativos de edição maliciosos e o repasse de denúncias ao National Center for Missing and Exploited Children (NCMEC).

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