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Microsoft e Amazon investem bilhões de dólares em milhares de Engenheiros de Implantação Direta (FDEs)

Microsoft e Amazon investem bilhões de dólares em milhares de Engenheiros de Implantação Direta (FDEs)

As gigantes de tecnologia vão inserir seus próprios engenheiros diretamente nas equipes dos clientes, desafiando décadas de domínio exercido pelas integradoras de sistemas no setor de implementação de tecnologia corporativa.

Há décadas, as integradoras de sistemas (SIs, na sigla em inglês) desempenham papel essencial em projetos de TI, oferecendo consultoria e ajudando empresas a construir e colocar em operação ferramentas tecnológicas.

Agora, com a corrida das organizações para adotar IA agêntica, as principais fornecedoras de modelos de linguagem (LLMs) buscam participar desse mercado. Uma nova onda de serviços de Engenheiros de Implantação Direta (FDE) coloca especialistas em IA dentro das equipes dos clientes para ajudar a criar, personalizar e lançar soluções de inteligência artificial.

Nesta semana, por exemplo, a Microsoft lançou um empreendimento de US$ 2,5 bilhões chamado Microsoft Frontier Company, que segundo a empresa “vai além” do modelo tradicional de FDE. Já a Amazon Web Services (AWS) anunciou um investimento próprio de US$ 1 bilhão em uma nova plataforma de FDE.

As duas iniciativas vão integrar milhares de engenheiros da Microsoft e da AWS diretamente aos ambientes dos clientes, não apenas para ajudar na construção de ferramentas de IA, mas também para transmitir habilidades essenciais que permitam às empresas conduzir esses projetos de forma independente no futuro. Outras grandes fornecedoras de modelos, incluindo a Anthropic, também estão entrando nesse mercado com seus próprios serviços de FDE.

Thomas Randall, diretor de pesquisa do Info-Tech Research Group, observa que a distância entre o investimento em IA e o retorno obtido continua aumentando, e as organizações estão sob pressão para comprovar valor real em suas implementações de inteligência artificial.

É nesse cenário que os serviços de FDE oferecidos por fornecedoras como Microsoft e AWS ganham relevância, segundo ele, ao “encurtar curvas de aprendizado por meio de conhecimento profundo de produto, criar processos reutilizáveis e desenvolver capacidades que depois podem ser repassadas” aos clientes.

Transformação de fronteira

A Microsoft Frontier Company vai alocar 6 mil especialistas junto a clientes para “cocriar, coinovar, implantar e aprimorar continuamente” sistemas de IA alinhados aos objetivos específicos de cada negócio, escreveu Judson Althoff, CEO da divisão comercial da Microsoft, em publicação no blog da empresa.

A nova oferta se concentra no que a Microsoft chama de “Transformação de Fronteira”, ajudando clientes a construir uma plataforma de inteligência baseada em seus próprios dados, expertise interna, fluxos de trabalho e processos decisórios. Fundamentada em princípios de FinOps, a solução permite que os usuários “observem, governem, gerenciem e protejam” ferramentas de IA em toda sua infraestrutura, com ganhos de inteligência que se acumulam ao longo do tempo, segundo Althoff.

Ele destacou que a Microsoft Frontier Company é uma plataforma “diversa em modelos, aberta e heterogênea”, permitindo que os clientes escolham livremente entre ChatGPT, Claude, Microsoft Copilot ou outros modelos de código aberto ou voltados a setores específicos.

“Os clientes não devem ficar presos a um único modelo, assim como não deveriam ficar presos a um único fornecedor de tecnologia”, afirmou Althoff. Ele também reforçou que os dados e a propriedade intelectual dos clientes são protegidos e não são utilizados para treinar os modelos da Microsoft.

A empresa afirma que vai contar com suas parcerias de integração e FDE junto a Accenture, Capgemini, EY, KPMG, PwC e outras para ampliar a escala da plataforma. Clientes que já adotaram a solução, como London Stock Exchange Group (LSEG), Land O’Lakes, Unilever e Novo Nordisk, já registram “resultados mensuráveis”, segundo Althoff.

Um exemplo é a integração de IA à plataforma LSEG Workspace, que permite a especialistas financeiros fazer perguntas complexas e obter respostas rápidas com base em dados financeiros estruturados e não estruturados. Segundo Althoff, essa base é “refinada de forma iterativa” a partir do retorno dos clientes e de testes em tempo real com usuários, o que acelera cada ciclo e melhora a qualidade e o alcance do modelo.

Esse é justamente o valor dos FDEs, argumenta ele: “É necessário conhecimento profundo de engenharia de IA corporativa, aliado a expertise setorial, para construir um sistema que funcione como um ciclo contínuo de aprimoramento.”

Encurtando prazos

Assim como a Microsoft Frontier Company, a plataforma de FDE da AWS insere engenheiros experientes nas equipes de negócios, engenharia e segurança dos clientes, ajudando-os a construir e lançar agentes desenvolvidos sob medida para seus dados, processos e estruturas de governança, explicou Francesca Vasquez, vice-presidente de engenharia e serviços de IA de fronteira da AWS, em publicação no blog da empresa.

“Diferente da consultoria tradicional, que avalia, recomenda e trata cada implementação como um projeto isolado, o FDE da AWS constrói pensando no longo prazo”, destacou ela. Os clientes se tornam “autossuficientes em IA”, evoluindo de “observadores para cocriadores e, depois, para operadores autônomos”, à medida que absorvem habilidades, fluxos de trabalho e padrões que poderão aplicar em projetos futuros.

A plataforma tem foco agêntico desde sua concepção e foi projetada para reduzir prazos “de meses para dias”, com a inteligência de negócios gerada se acumulando para apoiar projetos futuros, afirmou Vasquez.

Os engenheiros alocados, muitos dos quais ajudam a desenvolver os próprios serviços de IA da AWS, validam e orientam os projetos. A empresa afirma que também está investindo em treinamento, ferramentas e recursos para fortalecer sua rede de parceiros.

Os clientes têm acesso a manuais operacionais e documentação de arquitetura, além de uma camada semântica conectada às suas fontes de dados, que gera um grafo de conhecimento sobre o qual os agentes de IA podem raciocinar, explicou Vasquez.

Ela ressaltou que o conhecimento especializado permanece incorporado ao código, aos agentes e aos sistemas do próprio cliente, evitando que esse conhecimento institucional se perca com a rotatividade de funcionários. Além disso, as ferramentas de segurança oferecem isolamento em nível de hardware e criptografia de ponta a ponta.

Vasquez ressaltou que o FDE da AWS não é voltado a empresas que ainda estão apenas testando IA, mas sim “construído para organizações que já superaram a fase experimental e precisam de sistemas de IA em produção, rodando processos reais de negócio”.

Ainda há espaço para as integradoras

As integradoras de sistemas construíram, ao longo de décadas, relações lucrativas com seus clientes, por isso faz “todo sentido” que as gigantes de nuvem queiram conquistar parte desse mercado para si, avalia o analista de tecnologia Carmi Levy.

“Tanto a Microsoft quanto a Amazon estão buscando, de forma agressiva, maneiras de fortalecer a fidelização de seus clientes e ampliar seu acesso às operações e aos processos decisórios dessas empresas”, observou.

Além disso, segundo Randall, uma pesquisa do Info-Tech revela que 77% das organizações ainda não possuem uma estratégia corporativa de IA abrangente. Os FDEs vêm justamente para preencher essa lacuna, com atuação pontual e específica voltada a sistemas de IA funcionais, arquiteturas de referência, manuais operacionais e outros entregáveis do cliente.

As integradoras, no entanto, oferecem um tipo diferente de serviço, segundo ele. Sua relevância está em um conhecimento mais amplo de integração entre sistemas, gestão de mudanças e escalabilidade de programas corporativos. “Seus entregáveis tendem a ser mais estratégicos e mais abrangentes.”

Há, é claro, sobreposição entre esses papéis, segundo ele, e a Microsoft continuará trabalhando de perto com suas parceiras integradoras globais. A lacuna de investimento e a complexidade das implementações pressionam as gigantes de nuvem a “oferecer serviços mais personalizados para acompanhar seus clientes de perto”.

Pontos de atenção para as empresas

Levy observa que, para clientes que já definiram sua pilha tecnológica de IA, essas plataformas podem valer a pena, desde que estejam confortáveis com uma abordagem centrada em um único fornecedor.

“Supondo que Microsoft e Amazon sejam competitivas em preço e serviço em relação às integradoras, elas podem representar uma alternativa interessante”, afirmou. Ainda assim, recorrer a esses serviços pode significar menos opções de escolha, o que pode limitar a flexibilidade da empresa no longo prazo.

Ainda não está claro se esse tipo de plataforma beneficia mais o cliente ou o próprio fornecedor, nem se entrega mais valor do que as alternativas já existentes, segundo ele, mas é o mercado que vai decidir isso, no fim das contas.

Diante disso, ele recomenda que os tomadores de decisão em TI analisem cuidadosamente não só as competências de entrega agêntica da Microsoft e da Amazon em comparação às integradoras, mas também se as motivações por trás dessas plataformas estão “verdadeiramente alinhadas com os interesses dos clientes”.

Randall, do Info-Tech, também recomenda que as empresas avaliem com clareza o tipo de resultado que buscam. Os FDEs são capazes de acelerar implementações precisas nas plataformas em que são especializados, enquanto as integradoras ajudam a fazer essa solução funcionar dentro do contexto mais amplo da empresa.

Segundo ele, o modelo de FDE é mais indicado para organizações que já superaram a fase de testes com IA e buscam implementações rápidas e eficazes de produtos. Já as integradoras se tornam necessárias quando essas organizações precisam escalar esse padrão em meio a processos corporativos mais complexos e desorganizados.

Outro ponto a considerar, segundo Randall: “Os FDEs não são adequados para organizações que ainda estão resolvendo questões básicas de estratégia de IA ou que desejam manter neutralidade em relação a provedores de nuvem.”

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